O dia tinha sido longo;
A ceia prolongou-se mais do que o habitual;
A “murraça” já rojava as orelhas. As vozes alteradas arrastavam–se e o “Zé da Eiras” insistia com o “Tio Caseirico”;
- “Ficai home ca noite só é boa prós lobos ... fazemos-vos a cama no curral e ideis amanhã purmanhã.”
Ó tio Zé bossemecê está–ma dezer qu`eu sou cagão?
Num senhor.
Bossemecê é um home de coraige mas, nunca se sabe o que bus pode assuceder!...
Pode bus dar ua dor ...
Ó tio Zé num inteimeis c`migo ... bou e bou mesmo.
Quando o tio Caseirico, alfaiate de profissão, saía da porta, agarrou o “Zé das Eiras” e confidenciou – lhe;
- “S`cunfio ca` nha Maria anda cum outro”.
Num me finto!...
S`cunfiar, s`cunfio...
Pur isso é que bós quereis ir embora p`ra apanhar o melro.
A ceia prolongou-se mais do que o habitual;
A “murraça” já rojava as orelhas. As vozes alteradas arrastavam–se e o “Zé da Eiras” insistia com o “Tio Caseirico”;
- “Ficai home ca noite só é boa prós lobos ... fazemos-vos a cama no curral e ideis amanhã purmanhã.”
Ó tio Zé bossemecê está–ma dezer qu`eu sou cagão?
Num senhor.
Bossemecê é um home de coraige mas, nunca se sabe o que bus pode assuceder!...
Pode bus dar ua dor ...
Ó tio Zé num inteimeis c`migo ... bou e bou mesmo.
Quando o tio Caseirico, alfaiate de profissão, saía da porta, agarrou o “Zé das Eiras” e confidenciou – lhe;
- “S`cunfio ca` nha Maria anda cum outro”.
Num me finto!...
S`cunfiar, s`cunfio...
Pur isso é que bós quereis ir embora p`ra apanhar o melro.
(continuar a ler)......em "ler mais"
Melro!... aquilo é, mas é, um gabião ...
Então, p`ro acaçareis luvais ua s`copeta que bus a emprêsto eu.
S`cupeta!... num é preciso, bedis esta?
E, abrindo e fechando energicamente a sua tesoura de alfaiate remata;
– Isto pr`ócapar é melhor ca bossa s`copeta.
– Bou lá cortar junta e redonda.
Se la curtareis fazeis bós bem, eu fazia-lo mesmo e ó despois até la luvava á mulher dele, s`pindurada na ponta d`ua aguelhada.
Passo apressado, movido por uma mistura de ciúme, álcool, raiva e medo, as subidas pareciam descidas e as descidas fazia-as sempre a correr.
Já no Queiredo, tinha subido todo o caminho das hortas a passo largo. Com a secura que levava, a água da fonte da lameira seria pouca para lhe saciar a sede.
Embora sendo Primavera o tio Caseirico levava a jaqueta, o jaleco e, por cima da jaqueta, uma capa de pardo que seu pai lhe havia deixado.
Já avistava o vulto do centenário castanheiro à entrada da lameira;Já ouvia o coaxar das rãs no poço,
… a fonte era já ali.
A noite estava escura como breu.
De repente, uma força misteriosa travou – lhe o ímpeto da passada.
Não se via céu nem terra.
Obrigado a parar o tio Caseirico arfando de cansaço, toldado pelo álcool e surpreendido pelo inesperdo bloqueio, pensou com os seus botões;
- “Bou-ma fazer de morto e, daqui a um cibico, dou um puxão e ala ...”
Mais quieto que uma estátua esteve imóvel para ganhar coragem, para recobrar do esforço e para enganar a força misteriosa que teimosamente o impedia de chegar à fonte.
Esteve uns segundos completamente inerte.
Nada se ouvia, para além das rãs, nada se via para além do agigantado vulto do centenário castanheiro que, do lado esquerdo, mais parecia uma inexpugnável fortificação medieval a guardar a entrada de forasteiros e invasores na lameira.
Motivado pelo singular cenário o tio Caseirico fechou os olhos, cerrou os dentes e, suavemente, com pézinhos de lã, como se tivesse medo de acordar algum monstro, tentou reiniciar a caminhada.
Tudo em vão.
A força oculta continuava a puxá–lo para trás, não o deixando prosseguir a sedenta caminhada que tinha por objectivo dois grandes desígnios:
O primeiro em defesa da sobrevivência, MATAR a SEDE e,
... o segundo em defesa da honra, CAPAR O LAFRAU.
Mas, ali sequestrado, sentiu-se um prisioneiro. O sangue começava-lhe a arrefecer, a boca a secar cada vez mais, as urinas a soltaram–se e os pensamentos aterradores de lobisomens a turvarem-lhe o, já de si, embrutecido raciocínio.
Porém, a determinação de fugir àquela prisão era inabalável.
Pondo em prática o desejo de liberdade, num impulso que parecia o último da sua vida, fez uma desesperada tentativa para saír dali:
A noite estava escura como breu.
De repente, uma força misteriosa travou – lhe o ímpeto da passada.
Não se via céu nem terra.
Obrigado a parar o tio Caseirico arfando de cansaço, toldado pelo álcool e surpreendido pelo inesperdo bloqueio, pensou com os seus botões;
- “Bou-ma fazer de morto e, daqui a um cibico, dou um puxão e ala ...”
Mais quieto que uma estátua esteve imóvel para ganhar coragem, para recobrar do esforço e para enganar a força misteriosa que teimosamente o impedia de chegar à fonte.
Esteve uns segundos completamente inerte.
Nada se ouvia, para além das rãs, nada se via para além do agigantado vulto do centenário castanheiro que, do lado esquerdo, mais parecia uma inexpugnável fortificação medieval a guardar a entrada de forasteiros e invasores na lameira.
Motivado pelo singular cenário o tio Caseirico fechou os olhos, cerrou os dentes e, suavemente, com pézinhos de lã, como se tivesse medo de acordar algum monstro, tentou reiniciar a caminhada.
Tudo em vão.
A força oculta continuava a puxá–lo para trás, não o deixando prosseguir a sedenta caminhada que tinha por objectivo dois grandes desígnios:
O primeiro em defesa da sobrevivência, MATAR a SEDE e,
... o segundo em defesa da honra, CAPAR O LAFRAU.
Mas, ali sequestrado, sentiu-se um prisioneiro. O sangue começava-lhe a arrefecer, a boca a secar cada vez mais, as urinas a soltaram–se e os pensamentos aterradores de lobisomens a turvarem-lhe o, já de si, embrutecido raciocínio.
Porém, a determinação de fugir àquela prisão era inabalável.
Pondo em prática o desejo de liberdade, num impulso que parecia o último da sua vida, fez uma desesperada tentativa para saír dali:
- “AGORA ou NUNCA, ou BAI ou RACHA”.
Tudo em vão. A força desconhecida apenas o deixou avançar menos de um passo, mas, da forma que o puxava para trás não demoraria a voltar à primeira forma.
Os miolos não paravam: – “... tem que ser um lobisome, tem que ser um lobisome ou atão inda pior, até pode ser o dianho em pessoa ...”
Tudo em vão. A força desconhecida apenas o deixou avançar menos de um passo, mas, da forma que o puxava para trás não demoraria a voltar à primeira forma.
Os miolos não paravam: – “... tem que ser um lobisome, tem que ser um lobisome ou atão inda pior, até pode ser o dianho em pessoa ...”
Cansado de puxar para diante, sem conseguir progredir, recuou levemente de modo a não desperdiçar o ténue fôlego que ainda lhe restava. Estava à beira da exaustão. O tio Caseirico, muito devagar, por forma a não despertar a fúria do dianho transformado em lobisomem, foi-se agachando até que se enrolou, qual novelo, mesmo ali, na rodeira do caminho.
O corpo moído, o vinho e o medo teimosamente lhe cerravam os olhos e o transportavam para muito longe dali, refreando-lhe quer a sede de água, quer o desejo de iniciar a sua nova profissão de CAPADOR. De repente, estremunhado, fez–se - lhe luz.
Revoltado contra si próprio balbuciou; - Ca granda burro queu sou, isto só pode ser o dianho mandado por o Lafrau por quem a nha Maria S`imbeiçou”
- E se me mata? Num me posso dormir.
O Tio Caseirico começou a rezar e a pedir a “N. Srª D`O Pé da Cruz” para que o deixasse viver, pelo menos, até sua filha Mariana, com sete anos feitos nos fenos se arrumasse com um homem trabalhador de carácter e de vergonha.
Enlevado nestes pensamentos apesar do frio do orvalho que até lhe roía os ossos, voltou a passar pelas brasas.
Suava, abriu os olhos, o sol já ia alto e, mesmo debaixo do seu nariz, viu uma grande silva que lhe estava enroscada no capote.
Ah granda traste!...
, decidida e CORAJOSAMENTE, retirou a tesoura do bolso e “ZÁS” cortou a grossa silva junta e redonda.
“Carai, se fosse a um home fazia-lo mesmo”
Enégica
Casimiro & Lia

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